Artigos Completos

HOME

 

Agrotecnologia para o cultivo da Espinheira Santa

PEDRO MELILLO DE MAGALHÃES

CPQBA-UNICAMP, C.P. 6171, CEP: 13.081-970 Campinas–SP – BRASIL. 
E-mail: pedro@cpqba.unicamp.br
18/01/2002

Descrição

Maytenus ilicifolia Mart. ex Reiss. pertence a família Celastraceae sendo conhecida no Brasil como Espinheira Santa em alusão às suas folhas que possuem bordas espinhosas e propriedades medicinais. A Espinheira Santa é uma espécie perene, de porte arbóreo-arbustivo, encontrada nas matas do sul do Paraná. Um forte marcador taxonômico que difere a M. ilicifolia de outras espécies, principalmente de M. aquifolia, é a caraterística dos ramos apresentarem estrias longitudinais. Carvalho - Okano, 1992, descreve os seguintes parâmetros taxonômicos para a M. ilicifolia: Subarbusto ou árvore, ramificado desde a base, medindo cerca de 5,0m de altura. Ramos novos glabros angulosos, tetra ou multicarenados. Folhas congestas, coriáceas, glabras; pecíolo com 0,2-0,5cm de comprimento; estípulas inconspícuas; limbo com 2,2-8,9cm de comprimento e 1,1-3,0cm de largura; nervuras proeminentes na face abaxial; forma elíptica ou estreitamente elíptica; base aguda e obtusa; ápice agudo a obtuso, mucronado ou aristado; margem inteira ou com espinhos em número de 1 a vários, distribuídos regular e irregularmente no bordo, geralmente concentrados na metade apical de um ou de ambos os semilimbos.

Detalhe dos ramos angulosos-multicarenados de M. ilicifolia

Inflorescências em fascículos multifloros. Pedicelos florais com 0,2-0,5cm de comprimento. Sépalas ovais, inteiras, com cerca de 0,22cm de comprimento e 0,2cm de largura. Estames com filetes achatados na base. Estígma captado, séssil ou com estilete distinto; ovário saliente ou totalmente imerso no disco carnoso. Fruto cápsula bivalvar, orbicular; pericarpo maduro de coloração vermelho-alaranjada. Segundo Calágo (Com. pess.), embora as flores de M. ilicifolia sejam completas, existe uma tendência para que muitas flores sejam funcionalmente díclinas, por aborto. Existem plantas que são exclusivamente díclinas, com flores tendo a parte estaminada ou a parte pistilada abortada. Quando a estaminada não é funcional, não há produção de pólen e os estames apresentam coloração esbranquiçada; quando a parte feminina é a abortada, não existe óvulo funcional no interior do ovário. Desse modo, é observado uma tendência à dioicia com plantas que, apesar da floração, não produzem frutos (estaminadas) e outras que produzem grande quantidade de frutos (pistiladas). A presença de disco nectarífero é um recurso a mais para atrair os polinizadores (pequenos hymenópteros e formigas) formando um conjunto néctar-pólen interessante para a polinização, uma vez que as flores são pequenas, brancas e pouco vistosas, e também por se fazer importante garantir a polinização em espécie que se encontra em fase de transição para a dioicia. Em ensaios preliminares sobre a biologia da reprodução, Calágo (Com. Pess.), não constatou a ocorrência de apomixia.

Ecologia

Habitat:

M. ilicifolia é encontrada predominantemente na região sul do Brasil, no interior de matas nativas e em matas ciliares, onde os solos são ricos em matéria orgânica. A ocorrência de M. ilicifolia nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul é pouco abundante.

Altitude:

até aproximadamente 1200m.

Clima:

Subtropical e temperado.

Solo:

Prefere solos argilosos, porém bem drenados e com alto teor de matéria orgânica (>2%).

Propriedades e aplicações

O interesse medicinal mais comum pela Espinheira Santa é para o tratamento de gastrites e úlceras gástricas e duodenais. A indicação popular do chá feito das folhas da Espinheira Santa, pôde ser comprovada cientificamente por vários autores: Carlini & Bráz, 1988; Faleiros et al., 1992; Ferreira et al., 1996; e Carvalho et al., 1997.

O estudo de frações hexânicas das folhas de M. ilicifolia, desenvolvido por Faleiros et al., 1992, evidenciou que os compostos triterpênicos friedelina e friedelanol, isolados por Itokawa et al., 1991, são responsáveis por 50% do efeito antiulcerogênico da Espinheira Santa. Oliveira et al., 1992, observaram que as substâncias 4-0-metil - epigalocatequina e seu epímero 4’-0-metil-ent-galocatequina, isoladas do extrato aquoso de M. ilicifolia, reduziram a secreção gástrica de ácido. Outras indicações populares citam a Espinheira Santa para: febres palustres (Meira Penna, 1946); afeções priginosas cutâneas (Raul Coimbra, 1958); dispepsias (G.L. Cruz, 1965) e como abortiva (Basualdo et al., 1995). M. ilicifolia, assim como outras espécies da família Celastraceae foi investigada sobre seus constituintes de ação citotóxica, sendo isolados triterpênos aromáticos de ação antitumoral (Itokawa et al., 1993; Shirota et al., 1994). Além da indicação de M. ilicifolia para o tratamento de úlceras estomacais, alguns constituintes antitumorais foram encontrados nos gêneros: Maytenus (maytansine e maytanprine), Kokoona (kokzeylanol e kokzeylanonol) e Tripterygium (triptolide e triptonide). Algumas espécies são utilizadas popularmente como febrífugo (M. boaria e M. communis), Bérenger et al., 1996.

Estrutura da friedelina, responsável parcial do efeito antiulcerogênico de M. ilicifolia.

Estado da cultura

Em decorrência da comprovação científica das propriedades antiulcerogênicas da Espinheira Santa, houve no comércio um brusco e significativo aumento da demanda pela planta, sem o devido planejamento para garantir a sua produção. De fato, até então, a espécie não era cultivada e toda folha de Espinheira Santa provinha do extrativismo. As primeiras tentativas de cultivo foram frustrantes devido a baixa germinação das sementes e pelo crescimento lento. Essas dificuldades acarretaram o desânimo dos agricultores e favoreceram um extrativismo desenfreado, pondo a espécie em risco de extinção. Também as dificuldades de uma produção racional de M. ilicifolia deu margem a casos de fraude dos produtos comercializados com a mistura de folhas de outras espécies. A partir dos trabalhos de germinação de M. ilicifolia realizados no CPQBA -UNICAMP, em 1990, e com a instalação, naquela estação experimental, do primeiro cultivo com genótipos vindos de Araucária, Paraná, é que foi possível adquirir os parâmetros básicos para a tecnologia de cultivo da Espinheira Santa. No entanto, aquela população apresentava grande variabilidade, a qual vem sendo explorada em trabalhos de seleção, principalmente quanto aos parâmetros: arquitetura dos ramos, vigor da rebrota após a poda, produção de biomassa e de sementes, entre outros. Também estudos sobre o tipo de poda e a avaliação de híbrido interespecífico (M. ilicifolia x M. aquifolia) vem sendo desenvolvido no CPQBA. Calheiros et al., 1997, demonstraram que a variabilidade em Espinheira Santa pode ser detectada pela técnica de marcadores RAPD. No estado atual, pode-se ter basicamente três situações quanto ao tipo de população para o cultivo: aquelas de grande variabilidade, constituídas por progênie de diversas plantas; aquelas formadas por progênie de uma mesma planta (população de meios-irmãos) ou aquelas obtidas por clonagem, através da técnica de cultura de tecidos, conforme Pereira et al., 1995, ou por estacas, segundo Zanco et al., 1996.

Multiplicação

A Espinheira Santa pode ser propagada por sementes, desde que se observem os seguintes critérios: a) Colher os frutos quando estes estiverem com as valvas abertas expondo o arilo (normalmente de outubro à fevereiro, em Campinas-SP); b) Colher somente aqueles frutos que contém sementes morron-escuras (raspa-se o arilo para tal observação) e c) Remover o arilo manualmente antes da semeadura. Além destes cuidados, o recipiente para a formação das mudas deve ser profundo e volumoso (saquinhos de 5cm de diâmetro por 15-20cm de profundidade) para permitir o desenvolvimento normal das raizes (pivotante) e garantir os nutrientes durante o relativo longo tempo de viveiro (4 a 5 meses).  Uma das vantagens de se propagar a Espinheira Santa por sementes, além de permitir a produção de mudas em larga escala, é a formação da raiz pivotante, que não ocorre nos sistemas por estacas ou por cultura de tecidos (Magalhães et al., 1991). Em testes de germinação, Rosa & Barros, 1997, demonstraram que as sementes de M. ilicifolia germinam melhor entre 20 e 30oC. O número de sementes por fruto varia de 1 a 4, sendo mais freqüente encontrar uma semente por fruto. O peso de 1000 sementes é de 99,1g. As sementes armazenadas em câmaras frias (5oC e 85% de umidade relativa-UR), manteve o poder germinativo de 85% após 120 dias, enquanto que, no mesmo período, sementes armazenadas em condições ambientais apresentaram 28% de germinação.

Ramo de M. ilicifolia em estadio de frutificação.

Espaçamento e época de plantio

A melhor época para o transplante da Espinheira Santa para o campo de cultivo seria durante a primavera. Porém, como a formação das mudas é lenta, 4 a 5 meses, e deve iniciar-se também na primavera, recomendamos o transplante no verão. Assim, a semeadura pode ser no início de outubro e o transplante no final de fevereiro. Embora a Espinheira Santa seja de porte arbóreo-arbustivo, o seu plantio pode ser adensado na linha, uma vez que aceita o sistema de poda. Assim, recomendamos a densidade de 4.000 plantas por hectare, no espaçamento de 1,0m na linha e 2,5m entre linhas. O espaçamento da entre linha poderá variar (2,0-3,0m) em função da bitola das máquinas disponíveis.

Fertilização

Correa Júnior et al., 1991, sugerem a seguinte adubação: na sementeira, usar terra de mata e, no plantio, 5,0kg de composto orgânico ou esterco de curral curtido por cova, ou 2,5kg de esterco de aves + 300 a 500g de fosfato natural. Até o oitavo ano, no início da primavera, aplicar em cobertura 3kg de composto orgânico ou esterco de curral curtido, ou 1,5kg de aves + 75g de superfosfato simples + 50g de cloreto de potássio por árvore. A partir do oitavo ano, fazer adubação orgânica com 5kg de esterco de curral curtido ou composto orgânico, ou 2,5kg de esterco de aves por árvore. Magalhães, 1997, recomenda a aplicação de 20g de sulfato de amônia/planta/ano. Menezes Júnior et al., 1992, observou aumento no número de folhas e na altura, de plantas de M. aquifolia adubadas no plantio e em cobertura com fertilizantes minerais e orgânicos.

Tratos Culturais

A Espinheira Santa exige irrigações freqüentes na sua fase inicial, principalmente até os 2 primeiros anos. Depois, a freqüência da irrigação suplementar pode ser reduzida, chegando-se a aplicá-la somente nos casos de estiagem prolongada. Embora a M. ilicifolia seja uma espécie de sombra em seu habitat natural, o seu cultivo pode ser realizado a pleno sol ou em consorciação com outra espécie que forneça sombreamento parcial. Segundo Radomski et al., 1997, folhas de M. ilicifolia cultivadas a pleno sol apresentaram maior conteúdo de tanino. Nas entre linhas da cultura, pode-se plantar grama ou alguma espécie   leguminosa visando facilitar o controle de ervas invasoras, além de promover incremento de nitrogênio no caso das leguminosas. A Espinheira Santa pode ser podada anualmente (colheita), sendo que a primeira poda deve ser realizada a 50cm de altura. As podas subsequentes devem respeitar a altura das ramificações da planta.

Pragas e Doenças

Nenhuma praga tem sido grave para a Espinheira Santa. No entanto, observou-se a ocorrência de cochonilhas, ácaros e pulgões, os quais quando atacam em grande intensidade causam o recarquilhamento das folhas. O ataque de formigas cortadeiras pode prejudicar seriamente a cultura se ocorrer na fase de instalação da lavoura, logo após o transplante, quando as folhas são ainda tenras e pouco coriáceas. No cultivo de Espinheira Santa do CPQBA-UNICAMP observaram-se casos isolados de ferrugem das folhas, sem contudo, causar dano severo nas plantas com tal sintoma.

Colheita

A colheita da Espinheira Santa é realizada com a poda. No Brasil, o período ideal para a poda/colheita é no início da primavera. A primeira colheita pode ser realizada com a poda na altura de 50cm e as demais, nos anos seguintes, logo acima das ramificações promovidas pela poda anterior. O corte é feito manualmente com auxílio de tesouras de poda ou com tesouras de acionamento pneumático. Na região de Araucária, Paraná, utiliza-se o sistema de corte anual em cerca de 50% da copa das plantas, tomando-se uma linha imaginária vertical como divisória de cada metade da copa. Considera-se que a planta necessite de 2 anos para recuperar a quantidade de folhas de sua copa. Assim, o sistema alternado de colheita em cada metade da planta proporciona colheitas anuais.

Secagem

As folhas da Espinheira Santa são bastante coriáceas quando cultivadas a pleno sol e têm relativa baixa umidade, cerca de 50% no estágio de colheita. Como o material colhido é aquele obtido pela poda, folhas e ramos vem juntos. No CPQBA-UNICAMP, a secagem é realizada em secador com ar aquecido por queimador a gás, regulado para temperatura máxima de 40oC. Após a secagem, atingindo-se a umidade de equilíbrio, faz-se a separação dos ramos e folhas, de forma manual.

Rendimentos

O cultivo de M. ilicifolia do CPQBA-UNICAMP, no espaçamento de 1 x 3 metros, produziu, aos 4 anos, 0,67 ton de folhas secas/ha/ano, tendo-se cortado apenas as folhas de 1/3 da copa das plantas. Quanto ao rendimento em princípios ativos, até o momento não se dispõem de valores definitivos em função dos processos de seleção e melhoramento genético da espécie.

Literatura

Basualdo, I. et al., 1995. Medicinal Plants of Paraguay: Underground Organs, II. Economic Botany 49(4):387-394.

Bérenger, A.L.R. et al., 1996. Farmacologia e etnofarmacologia da família Celastraceae. XIV Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil. F-013.

Carvalho, E.L.S. et al., 1997. Anti ulcer activity of dried extracts from Maytenus ilicifolia in rats. WOCMAP II. Mendoza-Argentina. P-339.

Carvalho-Okano, R.M. 1992. Estudos taxonômicos do gênero Maytenus MOL. emend. Mol. (Celastraceae) do Brasil extra-amazônico. Tese de Doutorado. UNICAMP-IB.

Coimbra, R. & Diniz da Silva, E. 1958. Notas de Fitoterapia. 2a Ed. Laboratório Clínico Silva Araújo S/A.

Correa Júnior et al., 1991. Cultivo de plantas medicinais, condimentares e aromáticas. EMATER-Paraná. 162p.

Cruz, G.L. 1965. Livro Verde. Vol.II. 1a Ed. Belo Horizonte-Minas Gerais.

Faleiros, I.C.F. et al., 1992. Efeito antiulcerogênico de frações hexânicas das folhas de Maytenus ilicifolia (Espinheira Santa). XII Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil. Curitiba-Paraná. P-42.

Itokawa, H. et al., 1991. Triterpenes from Maytenus ilicifolia. Phytochemistry (Oxford) 30(11): 3713-3716.

Itokawa, H. et al., 1993. Oligo-nicotinated sesquiterpene polyesters from Maytenus ilicifolia. Journal of natural Prodcts. 56(9): 1479-1485.

Magalhães, P.M. 1997. O Caminho Medicinal das Plantas: aspectos sobre o cultivo. Ed. RZM. Campinas, SP. 120p.

Meira Penna. 1946. Dicionário Brasileiro de Plantas Medicinais. 3a Ed. Editora Kosmos, Rio de janeiro.

Menezes Júnior et al., 1992. Fitotecnia de medicinais: - Influência da adubação na produção de fitomasa de Maytenus aquifolia. XII Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil. Curitiba-Paraná.P-239.

Oliveira, A.B. et al., 1992. Efeito de substâncias isoladas do extrato aquoso das folhas de Maytenus ilicifolia M. (Espinheira Santa) sobre a secreção gástrica de ácido. XII Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil. Curitiba-Paraná. P-055.

Pereira, A.M.S. et al., 1995. Effect of phytoregulators and physiological characteristics of the explants on micropropagation of Maytenus ilicifolia. Plant Cell Tissue and Organ Culture 42: 295-297.

Radomski, M.I. et al., 1997. Tannin and total content of N, P, K, Ca, Mg, Fe, Mn, Cu, Zn, Al, B and Si, in Maytenus ilicifolia Mart. leaves. WOCMAP II. Mendoza-Argentina. P-318.

Rosa, S.G.T. & Barros, I.B.I. 1997. Characterization of Maytenus ilicifolia Mart. ex Reiss seeds and viability of their sexual propagation. WOCMAP II. Mendoza-Argentina. P-104.

Shirota, O. et al., 1994. Cytotoxic aromatic triterpenes from Maytenus ilicifolia and Maytenus chuchuhuasca. Journal of Natural Products. 57(12): 1675-1681.

______________________

Este trabalho faz parte de uma série de monografias do mesmo autor, desenvolvidas no CPQBA-UNICAMP, com apoio do programa CYTED. 

· Agrotecnologia para o cultivo da Estévia.

· Agrotecnologia para o cultivo da Embaúba

· Agrotecnologia para o cultivo do Quebra-Pedra.

. Agrotecnologia para o cultivo da Espinheira-Santa

· Agrotecnologia para o cultivo do Guaco.

· Agrotecnologia para o cultivo do Picão-Roxo.

· Agrotecnologia para o cultivo da Macela.

· Agrotecnologia para o cultivo da Carqueja.

· Agrotecnologia para o cultivo do Jaborandi.

. Agrotecnologia para o cultivo da Pfaffia.

| Retornar ao índice | HOME |

CPQBA
UNICAMP
princi@cpqba.unicamp.br
| Sobre o site | Histórico | Lista de Discussão | Projetos e Pesquisas do CPQBA | Artigos | Notícias
| Legislação | Eventos/Cursos | Sites | Diversos |
18-05-2010 13:51